
1942 / 1996
Ao longo deste histórico vamos continuar chamando-o de De La Penha, como sempre o tratávamos em nosso meio acadêmico-administrativo.
Falecido em Brasília, a 6 de fevereiro de 1996, De La Penha nasceu em Belém do Pará - cidade com que sempre manteve fortes laços - a 9 de março de 1942. Em Belém desenvolveu sua formação básica: concluiu o primário no Instituto Suiço Brasileiro e o ginasial no Colégio Nossa Senhora de Nazaré, dos Irmãos Maristas. Em 1960 formou-se como Agrimensor na Escola de Agrimensura do Pará, iniciando em seguida o curso de Engenharia na Universidade Federal do Pará (UFPA). Mas no mesmo ano transferiu-se para a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), onde se graduou em Engenharia Mecânica. Nesta mesma Universidade, em 1964, concluiu o Mestrado, tendo sido este o primeiro diploma de Mestre outorgado por aquele curso de Engenharia Mecânica.
No ano de 1965, nova mudança, novo mestrado: aluno do Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, obteve o diploma de Master of Arts. E em 1966 foi admitido no programa de doutorado em Engenharia Mecânica da Universidade de Houston, Texas. A seguir (1968), num programa de pós-doutorado do Departamento de Matemática da Universidade Carnegie Mellon, Pittsburgh, Estados Unidos, teve a oportunidade de trabalhar com G. Truesdell e M. Gurtin, entre outros mecanicistas daquela Universidade. Provavelmente daí tenha resultado o seu interesse pela Mecânica dos Meios Contínuos, área de pesquisa que ajudou a desenvolver como professor da COPPE (Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da UFRJ), ao retornar ao Brasil em 1969. Foi nesse período que organizou seminários sobre vários aspectos da Física Matemática, orientando dois alunos que concluíram, sob sua orientação, o Mestrado na COPPE [1]. Encaminhados ao exterior por De La Penha, esses alunos concluíram o Doutorado e, após o retorno ao Brasil, têm ocupado posições destacadas no desenvolvimento da Mecânica e da Matemática Aplicada em nossas Universidades.
Durante seu período na COPPE, De La Penha organizou o Programa de Engenharia Matemática, na época uma abordagem pioneira, o qual atraiu um contigente de bons alunos. Nomeado Diretor Pro-Tempore do Instituto de Matemática da UFRJ em 1971, De La Penha transferiu também consigo o Programa de Engenharia Matemática, com professores e alunos. Foi a pedra inicial do Curso de Pós-Graduação no IM-UFRJ. Implantados o Mestrado em Matemática Pura ou Aplicada e o Doutorado em Ciências, essa estrutura básica evoluiu para a atual configuração do IM- UFRJ. Lembremos que este Instituto foi criado como resultado da fusão de todos os Departamentos de Matemática das Escolas e Faculdades, que compunham a então chamada Universidade do Brasil, e atravessava, na época, uma fase de indefinição. Foi a criação de uma pós-graduação o evento que o conduziu aos seus reais objetivos - o ensino das matemáticas em nível universitário associado à pesquisa básica. O reconhecimento do curso por parte do CNPq - então Conselho Nacional de Pesquisas - possibilitou o financiamento deste pela Financiadora de Estudos e Projetos S/A (FINEP). Ao curso foram alocadas bolsas de pós-graduação pela CAPES, CNPq e pela própria FINEP.
Em janeiro de 1973, De La Penha foi nomeado, por decreto do Presidente da República, Diretor do IM-UFRJ, com um mandato de quatro anos. Durante esse período participou ativamente da organização de um congresso internacional sobre Mecânica do Contínuo e Equações Diferenciais Parciais, realizado em agosto de 1977 no IM-UFRJ. Esse encontro teve a participação de reconhecidos pesquisadores das duas áreas. As conferências e minicursos dessa reunião foram publicadas pela North Holland, sob o título "Contemporary Developments in Continuum Mechanics and Partial Differential Equations" - Math. Studies vol. 30 , 1977, Amsterdam, contendo 612 páginas. O texto foi comentado pelos periódicos: Journal of Fluid Mechanics, vol. 98, 1980 e Mathematical Reviews, vol. 18a , 1980. Este simposium foi um marco significativo na formação do IM-UFRJ. Contribuiu para o fortalecimento de equipes de pesquisa que hoje, bem robustas, desempenham papel fundamental no ensino, na pesquisa básica e na administração da UFRJ.
Ainda durante seu mandato, a pós-graduação do IM-UFRJ foi credenciada pelo Conselho Federal de Educação (reunião de 9 de abril de 1976) para o Mestrado em Matemática Pura ou Aplicada e Doutorado em Ciências.
Concluída sua gestão, De La Penha foi nomeado Diretor de Desenvolvimento Científico da FINEP. Daí em diante contribuiu com a administração de Ciência e Tecnologia ocupando diferentes funções: Vice-Presidente do CNPq; Secretário de Educação do Ministério de Educação e Desportos (MEC), na época de Educação e Cultura; Diretor do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém; Secretário da Organização dos Estados Americanos (OEA); Secretário de Cultura do Estado do Pará; Diretor de Programas Espaciais da Secretaria de Assuntos Estratégicos, cargo que ocupava quando veio a falecer.
Como Vice-Presidente do CNPq, na gestão Lynaldo Cavalcante, foi sua a iniciativa de implantar o Comitê Editorial do CNPq, em 1981. Naquela ocasião foi o seu apoio que viabilizou a criação do periódico Matemática Aplicada e Computacional, publicação da Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC) dentro do programa institucional CNPq/FINEP. Seu posicionamento, com um entusiástico apoio, foi também fundamental na discussão que conduziu à incorporação de um representante da área de Matemática Aplicada ao Comitê Assessor de Matemática e Estatística do CNPq.
Além das substanciais contribuições à SBMAC, acima mencionadas, De La Penha sempre se fez presente, com excelentes conferências, no congresso anual da SBMAC (CNMAC) - a última delas pronunciada na abertura do XVII CNMAC em Vitória-ES, 1994. Membro do Comitê Editorial da Matemática Aplicada e Computacional desde o Volume 1, em 1982, sua experiência na área conduziu também a uma reformulação da política editorial do Museu Goeldi.
De La Penha visitou grande número de universidades do país e do exterior, apresentando conferências, todas elas muito claras, uma das marcas de seu perfil profissional. Ele publicou vários livros didáticos para o ensino universitário e entre seus artigos científicos, destaca-se: A Grandeza do Desconhecido Euler, Revista Humanidades, vol. II, Número 15 (1983), pp.95-115.
Uma grande perda para a vida acadêmica e a administração da ciência no Brasil, a partida de De La Penha. Obrigado, amigo, pela forte, marcante contribuição que você legou ao desenvolvimento cultural de nosso país.
Carlos A. de Moura
IPRJ - UERJ
Caixa Postal 97.282 28601-970 Nova Friburgo-RJ
E-mail: demoura@iprj.uerj.br
Luis Adauto Medeiros
Instituto de Matemática - UFRJ Caixa Postal 68.530
21944-970 Rio de Janeiro-RJ
E-mail: c/o Profa. S.Malta
Marco Antonio Raupp
LNCC - CNPq Rua Lauro Müller 455
22290-160 Rio de Janeiro-RJ E-mail: c/o Secr.
SBMAC
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