CARTA ABERTA À SBF SOBRE HONORÁRIOS PARA FÍSICOS

Constantino Tsallis

Rio de Janeiro, 18 de Setembro de 1997

Caros colegas da Diretoria e Conselho da SBF,

Venho pela presente expressar uma convicção que espero e acredito seja compartilhada pela imensa maioria de nossos colegas físicos. Ser físico não é um hobby, não é um sacerdócio, não é um diletantismo. Ser físico é uma PROFISSÃO. E isto é verdadeiro, ainda mais, é melhor, se esta profissão é exercida com prazer e genuino interesse intelectual.

O exercício profissional do "metier" de físico implica, como para todas as outras profissões, em vantagens e desvantagens de naturezas diversas. Implica também, quase sempre, que o físico vive desta profissão, se alimenta dela, se acoberta sob um teto dela, e muitas coisas mais associadas a sua existência. É dela que obtém seus proventos, para ele e sua família. Para ser mais explícito, o físico normalmente paga o pão que compra na padaria, e as consultas médicas de seus filhos, com o dinheiro que ganha fazendo Física.

Sendo assim, causa-me espanto e perplexidade que nós, físicos, sejamos tão frequentemente solicitados - muitas vezes por outros físicos! - a exercer várias de nossas atividades gratuitamente ou quase. Tentando ser mais específico, refiro-me a atividades tais como proferir seminários, julgar Teses, participar de Bancas de Concursos, ministrar mini-cursos, avaliar Pós-Graduação etc. Parece-me óbvio que tarefas não rotineiras como estas, que frequentemente exigem níveis mínimos de qualificação e experiência profissionais, que implicam em esforço suplementar nada desprezível e em deslocamentos muitas vezes penosos, deveriam ser pagas como atividades extra.

Assim, no quadro desta minha visão da nossa profissão, venho propor que a SBF analise a conveniência e oportunidade de estabelecer uma TABELA DE HONORÁRIOS MÍNIMOS RECOMENDADOS a serem pagos pela instituição que recebe o serviço, para servir de referência dentro do território nacional. Para ilustrar meu pensamento, tal tabela poderia ter, a exemplo do que acontece com sucesso em tantas outras áreas profissionais, um formato tal como o que segue:

  • Seminário - R$ X
  • Banca de Tese de Mestrado - R$ 1,5 X
  • Banca de Tese de Doutorado - R$ 2 X
  • Banca de Concurso - R$ 2 X por dia
  • Minicurso - R$ 2 X por dia

etc (naturalmente estes valores referem-se aos honorários, e não a cobertura das possíveis despesas de alojamento, alimentação, transporte inter- e intra-urbano, etc). A Diretoria e Conselho poderiam sugerir o valor de X em Reais.

Solicito que a presente missiva seja considerada como uma CARTA ABERTA a todos os membros da SBF, e seja como tal amplamente divulgada através de meios usuais tais como a Internet, Boletim da SBF, e outros.

Agradecendo aos colegas a atenção dispensada, subscrevo-me cordialmente,

Constantino Tsallis
Pesquisador do CBPF
Rio de Janeiro

PS: A c&eacutelebre atriz Sarah Bernhardt, em cuja homenagem foi nomeado o belo teatro no Chatelet de Paris, era permanentemente solicitada para fornecer ingressos gratuitos nas suas divinas representações dramáticas. Os argumentos eram "O teatro tem tantas poltronas..., e além disso, você adora mesmo fazer teatro!". Ela acabou colocando no seu camarim um cartaz com os seguintes dizeres:
"NÃO ME PEÇAM FAZER DE GRAÇA A ÚNICA COISA QUE SEI FAZER!".

Constantino Tsallis

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