COAM e TCAM adotam políticas editoriais que preservam a transparência

Nos últimos anos, a comunidade científica tem sido impactada por um aumento de más condutas editoriais. Impulsionadas por pressões por produtividade, avaliações quantitativas rígidas e, mais recentemente, pela proliferação de ferramentas de geração automática de texto, tais práticas ameaçam diretamente a integridade científica, a confiança pública na ciência e a credibilidade das publicações acadêmicas.
O advento de tecnologias generativas avançadas, particularmente no campo da Inteligência Artificial, introduz complicações adicionais, permitindo a produção em larga escala de conteúdo de pesquisa de baixa qualidade ou enganoso. O cenário tornou-se tornou tão preocupante que levou a União Matemática Internacional (IMU) e o Conselho Internacional de Matemática Industrial e Aplicada (ICIAM) a formarem um grupo de trabalho conjunto.
O resultado da iniciativa foi a elaboração de dois documentos fundamentais que serão divulgados para a comunidade em breve: um relatório detalhado sobre o estado atual das práticas editoriais fraudulentas nas Ciências Matemáticas e um conjunto de recomendações práticas para instituições, avaliadores e pesquisadores. A iniciativa foi divulgada no boletim oficial do ICIAM, o DIANOIA, em julho, com as entidades desenvolvendo diretrizes, alertando a comunidade e influenciando políticas de combate a más condutas, com foco específico em:
- Publicações fraudulentas ou manipuladas (como uso de conteúdo gerado por IA sem verificação, submissões duplicadas, resultados fabricados);
- Revistas predatórias, que cobram taxas sem realizar revisão por pares ou seguir padrões éticos;
- Cartéis de citação, em que grupos de autores/editores combinam trocas artificiais de citações para inflar métricas acadêmicas.
Diante desse cenário, a Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC) tem acompanhado com atenção as discussões internacionais e reforçado seu compromisso com a integridade científica. Por meio de duas de suas revistas — a Computational & Applied Mathematics (COAM), publicada em parceria com a Springer, e a Trends in Computational and Applied Mathematics (TCAM), a Sociedade adota práticas editoriais transparentes, atualizadas e alinhadas às diretrizes internacionais.
“É necessário um movimento internacional contra a falta de ética”
Para Eduardo Souza de Cursi, editor-chefe da revista COAM, o impacto das revistas predatórias é particularmente danoso no âmbito acadêmico como um todo. “Elas desestimulam os pesquisadores sérios e geram um ruído prejudicial à análise dos resultados publicados”, alerta o professor no Instituto Nacional de Ciências Aplicadas de Rouen, na França.
Segundo ele, os sinais de fraude são perceptíveis: essas revistas tendem a publicar rapidamente textos de baixo conteúdo, sem uma análise rigorosa. “Um bom indício é a quantidade de artigos publicados por um mesmo autor. E, ao ler os textos, percebe-se o nível insuficiente”, continua Cursi.
Na COAM, os critérios éticos têm sido reforçados. A revista recebe regularmente artigos de autores que também publicam em periódicos suspeitos. A resposta editorial é objetiva: os manuscritos são avaliados com base em sua originalidade e conteúdo científico. Quando não atendem a esses requisitos, são recusados.
Além disso, há uma equipe dedicada à verificação prévia dos textos, inclusive para identificar conteúdo oculto (texto invisível). São utilizados softwares antiplágio que apontam similaridades e trechos de origem, e denúncias feitas pela comunidade também são levadas em consideração. Em casos confirmados de fraude, os autores são inseridos em uma lista mantida pela editora Springer.
Cursi relata, por exemplo, que recentemente recebeu uma denúncia de plágio e precisou tomar as medidas na prática. “Acionamos o Comitê de Ética da Springer, solicitamos duas avaliações técnicas e, com base nelas, emitiremos uma recomendação para a decisão final”, relata.
A revista também não aceita predação de código e se alinha com as diretrizes internacionais. “É necessário e útil que haja um movimento global contra a falta de ética, a predação e o abuso da IA”, reforça ele, que é um dos sócios-fundadores da SBMAC.
TCAM também adota medidas de contenção a práticas fraudulentas
Na TCAM, também publicada pela SBMAC, o cuidado com a integridade científica é igualmente prioritário. O editor-chefe Fabrício Simeoni de Sousa vê com entusiasmo o movimento liderado pela IMU e ICIAM. “É um passo fundamental. As áreas de Matemática, incluindo Matemática Aplicada, possuem características específicas — menor taxa de publicação e de citação quando comparadas a áreas como Física ou Medicina — o que as tornam mais suscetíveis a fraudes. Precisamos apoiar e divulgar essas diretrizes”, afirma o professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos.
A revista, segundo ele, já incorporou políticas claras de combate à má conduta. Softwares de detecção de plágio são utilizados de forma sistemática, e quando há indícios de uso abusivo de ferramentas de IA, detectores adicionais são empregados. Simeoni relata um caso recente em que a revista recebeu uma submissão totalmente gerada por IA, sem encadeamento lógico e sem contribuição científica. “Foi identificada e rejeitada imediatamente”, relata o matemático.
Para ele, é preciso separar o uso ético da IA — como ferramenta de apoio linguístico — do uso como geradora de conteúdo. “É aceitável usar IA para revisar o inglês ou auxiliar a escrita de um texto, por exemplo. Mas o conteúdo deve ser original e responsabilidade do autor. Usar IA para gerar o conteúdo do artigo é inaceitável”, reforça.
A TCAM também enfrenta desafios na triagem de manuscritos de autores que publicam em revistas suspeitas. Como rastrear todo o histórico de publicação pode ser inviável, o foco é o mérito científico da submissão. Simeoni reconhece que, muitas vezes, autores podem ter recorrido a periódicos predatórios por falta de orientação ou conhecimento. Nesses casos, o que conta é a qualidade da contribuição submetida à publicação.
O papel das métricas na cultura de produtividade
Um dos fatores que favorecem o crescimento de publicações predatórias é o uso excessivo de índices bibliométricos — como fator de impacto, número de publicações e de citações — para avaliação acadêmica. “Infelizmente, a pressão vem das instituições. A pesquisa virou corrida por números, e isso compromete a qualidade”, alerta o editor-chefe da TCAM.
O pesquisador do ICMC-USP destaca que a Matemática é uma área que não se encaixa bem em métricas quantitativas. Muitos pesquisadores da área produzem poucos artigos, mas de grande impacto. “Os índices em si não são vilões — o problema é o uso que se faz deles. Avaliar apenas por números é um erro”, continua Simeoni.
Educação, vigilância e boas escolhas
Ambos os editores destacam que pesquisadores jovens são alvos frequentes de armadilhas editoriais. Para evitar isso, defendem ações educativas e transparência. “É preciso divulgar a existência dessas práticas, ensinar como identificá-las e orientar sobre boas escolhas”, defende Simeoni.
Ele também deixa uma dica essencial aos jovens acadêmicos do amanhã. “Publique nas revistas que você lê. As revistas que costumo submeter são aquelas que acompanho e considero importantes na minha área. E considere também publicar em revistas com curadoria de sociedades científicas, como a SBMAC”.
A mensagem é clara: qualidade e ética caminham juntas — e publicações como COAM e TCAM são pilares dessa construção coletiva.