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Do cálculo à prevenção: SBMAC articula discussões sobre o papel da ciência matemática no combate aos desastres climáticos

Pesquisadores criam grupo de estudo para discutir como a ciência pode apoiar políticas públicas, sistemas de alerta e ações de adaptação às mudanças climáticas; tema será debatido no CNMAC, neste mês

Beleza e alerta: cores do céu que refletem um planeta cada vez mais vulnerável a extremos climáticos | Foto: Envato

As mudanças climáticas já não são projeções futuras: seus efeitos estão sendo sentidos de forma direta e dramática em diversas regiões do planeta. A intensificação de eventos extremos — enchentes, secas prolongadas, tempestades mais severas e ondas de calor sem precedentes — vem provocando impactos crescentes sobre a população, a infraestrutura e a economia. Por isso, a Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC) busca responder a esse desafio com a criação do Grupo de Trabalho para o Avanço e Desenvolvimento de Modelos Matemáticos e Computacionais em Mudanças Climáticas e seus Efeitos, um esforço para fortalecer e qualificar a produção científica que apoie a prevenção e a mitigação de riscos.

Essa interação complexa entre clima e desastres é objeto de estudo do pesquisador José Antonio Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), ligado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), do Governo Federal. Em suas palavras, a compreensão pública ainda carrega equívocos sobre a origem das tragédias. “Quando você lê nos jornais que ‘chuva mata 40 pessoas’, na verdade não é a chuva que mata, mas o desastre deflagrado por essas chuvas”, ressalta o peruano, radicado no Brasil desde 1994.

Pesquisador do Cemaden, José Marengo destaca a necessidade de sistemas de alerta e políticas públicas para enfrentar eventos climáticos extremos | Foto: Cemaden/MCTI

A natureza não é a vilã

Para Marengo, é preciso superar a ideia de que os desastres são responsabilidade exclusiva da ‘mãe natureza’. “Se vocês veem publicações sobre acontecimentos no Rio Grande do Sul ou na Amazônia, sempre a culpa é colocada na natureza. Mas ela faz seu papel natural, como sempre fez. O problema é a interferência humana, quando se ocupa áreas de risco onde não se deveria morar. Por isso, algumas tragédias são recorrentes e afetam principalmente os mais pobres”, explica o meteorologista.

Esse recorte social é um dos pontos centrais destacados pelo pesquisador. No Brasil e em outros países em desenvolvimento, os efeitos climáticos recaem de forma desproporcional sobre populações vulneráveis, sem acesso a infraestrutura adequada. “Uma sociedade com alto grau de pobreza é muito vulnerável aos extremos das mudanças climáticas. As consequências aparecem em mortos e feridos, deslocamentos, migrações forçadas e problemas de saúde”, acrescenta.

Incêndios devastadores atingem casas e florestas na Califórnia, lembrando que a crise climática é um fenômeno global | Foto: Envato

O pesquisador do Cemaden observa, no entanto, que a natureza também atinge de forma democrática regiões ricas do mundo. “Os desastres que estão acontecendo na Alemanha, na França e nos Estados Unidos mostram isso. Vimos os incêndios na Califórnia atingirem até casas de famosos de Hollywood”, lembra.

A aceleração do aquecimento global

O ritmo atual do aquecimento global preocupa os cientistas. “Desde 2010, a taxa de aquecimento aumentou mais de 50% em relação às quatro décadas anteriores. Apenas nos últimos dois anos, subimos mais de 0,4 ºC”, afirma Marengo.

O ano de 2024 ilustra esse salto. Segundo informações levantadas pelo pesquisador, trata-se do período mais quente da história desde o início das medições, em meados do século XIX. “Foi a primeira vez que ultrapassamos a marca de 1,5ºC estabelecida no Acordo de Paris de 2015. Esse valor não é apenas um número: significa que a chance de ocorrência de mais desastres naturais é altíssima”, alerta.

Firmado em 2015, o Acordo de Paris estabeleceu como meta global o esforço para limitar o aquecimento do planeta a no máximo 2ºC em relação aos níveis pré-industriais, buscando preferencialmente contê-lo em até 1,5ºC. Para isso, os países signatários se comprometeram a reduzir emissões de gases de efeito estufa, transitar para fontes renováveis de energia e combater o desmatamento. Essa prestação de contas sobre as metas climáticas deverá ser reforçada na COP 30, em novembro de 2025, em Belém, quando o Brasil estará no centro das discussões globais sobre clima e Amazônia.

Impactos da crise climática: enchentes em Porto Alegre deixaram milhares de pessoas afetadas em 2024 e mostram a urgência de políticas de prevenção | Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Em maio de 2024, as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul são um exemplo concreto das consequências da crise climática. “As chuvas poderiam ser previstas com três ou quatro dias de antecedência, e os alertas chegaram a ser emitidos. O problema foi justamente o entendimento desses alertas pela população, a percepção de risco de desastres. Muitas pessoas não quiseram sair de casa e, ainda assim, a enchente acabou atingindo essa parte da população”, relata.

O resultado foi devastador: mais de 180 mortos, cerca de 2 milhões de pessoas afetadas e prejuízos econômicos na ordem de R$ 8,5 bilhões.

A matemática como aliada da resiliência

Para enfrentar esse cenário, a ciência — e especialmente a matemática — desempenha papel estratégico. Modelos climáticos, hidrológicos e geológicos permitem simular cenários futuros e antecipar fenômenos extremos. “Podemos usar desde os modelos mais simples até os mais complexos, rodados em supercomputadores. Nenhum modelo tem 100% de eficácia, mas eles são essenciais para melhorar previsões e apoiar a tomada de decisão”, explica Marengo.

Previsões meteorológicas baseadas em modelos matemáticos são essenciais para reduzir riscos de enchentes, secas e ondas de calor | Foto: Envato

Além disso, técnicas de inteligência artificial e aprendizado de máquina já estão sendo incorporadas para aprimorar sistemas de alerta precoce, fornecendo maior precisão sobre intensidade e localização de eventos. “Um modelo é uma representação matemática da realidade. Para isso, precisamos de observações em campo. A matemática ajuda não só a prever o clima, mas também a avaliar os impactos e quantificar o que pode acontecer no futuro”, destaca o pesquisador, que é titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Esse debate estará no centro do Congresso Nacional de Matemática Aplicada e Computacional (CNMAC 2025), entre 15 e 19 de setembro na Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV EMAp), no Rio de Janeiro. Uma das mesas-redondas será dedicada justamente a discutir como as empresas têm enfrentado os desafios impostos pela crise climática.

Caminhos para o futuro

Segundo Marengo, a resposta ao problema exige um conjunto articulado de estratégias. Entre elas, políticas de adaptação (como sistemas de alerta precoce, gestão integrada de recursos hídricos e agricultura sustentável), ações de mitigação (redução de emissões e transição energética), infraestruturas resilientes (capazes de resistir a enchentes e deslizamentos) e a promoção da justiça social.

Mesmo diante de um planeta em chamas, a cooperação científica e política pode reduzir riscos e abrir caminho para um futuro sustentável | Foto: Envato

“É como se estivéssemos colocando gasolina no fogo”, compara o pesquisador. “A circulação atmosférica acelera e intensifica, tornando as chuvas mais violentas em pontos específicos e gerando desastres naturais. O cenário ideal é reduzir a intensidade dos extremos, diminuir a vulnerabilidade e controlar a exposição. Só assim será possível reduzir o risco de desastres”, complementa. 

Mais do que um desafio ambiental, as alterações climáticas representam uma questão social, econômica e de segurança. O fortalecimento da pesquisa, aliado à aplicação de modelos matemáticos e ao desenvolvimento de políticas públicas eficazes, será decisivo para reduzir vulnerabilidades e preparar a sociedade para um cenário em que extremos climáticos se tornam cada vez mais frequentes. A construção de soluções coletivas e sustentáveis é, portanto, condição essencial para enfrentar uma das maiores crises do nosso tempo.

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