Da primeira apresentação no CNMAC às ações pela diversidade, a trajetória da pesquisadora da COPPE/UFRJ revela como pesquisa, formação e afeto podem transformar a comunidade matemática

“Eu já era nerd.” É assim que Celina de Figueiredo costuma resumir a infância — mas a frase, embora espirituosa, guarda camadas. Mais velha dentre quatro irmãos, ela passou por uma cirurgia grave na coluna quando pequena e ficou um ano inteiro presa à cama. Foi ali, imobilizada, que descobriu que estudar podia representar um mundo inteiro de possibilidades.
“Meu pai estudou comigo para eu não perder o ano. Isso nos aproximou muito. E eu já gostava de Matemática. Aquilo reforçou um lugar de identidade”, conta. A mãe, leitora constante, completava a equação. O ambiente da casa estimulava curiosidade, e os professores da escola abriram caminhos.
Nascida nos Estados Unidos durante o período em que o pai estudava por lá, Celina sempre se reconheceu brasileira. Cresceu no Rio de Janeiro, cidade que, apesar de todos os voos acadêmicos, jamais deixou de ser casa.
Ainda adolescente, amava estudar de tudo um pouco. Chegou a hesitar entre Letras e Tecnológicas, como antigamente era chamado o ramo de Ciências, como Matemática, Química, Física e Engenharia. “Até hoje tenho um grupo de leitura. Sempre gostei muito de literatura”, comprova. Mas havia algo na lógica, na abstração e no silêncio fértil da Matemática que a convocava de modo definitivo.
“Para pesquisar Matemática, você precisa gostar de se concentrar. É solitário. Mas é uma paixão”, opina a carioca. Era um chamado — e Celina atendeu.
A formação de uma pesquisadora
O percurso acadêmico começou na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde fez bacharelado e mestrado em Matemática. Seguiu para o Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade de Manchester (UMIST), na Inglaterra, junto do seu marido em busca de novas fronteiras.
A carreira também se desenrolou em movimento conjunto com a vida pessoal. “O primeiro lugar para onde segui não fui eu que escolhi. Foi meu marido. Essas equações familiares a gente aprende a resolver”, recorda Celina.
De volta ao Brasil, concluiu um segundo mestrado. E então veio o encontro que mudaria sua trajetória: com o professor Jayme Luiz Szwarcfiter, no Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE-UFRJ), apresentado por uma antiga professora do colégio, Ana Regina Rocha — aquela mesma que, anos depois, coordenaria o programa em que Celina ingressaria.
“Em um momento, eu não sabia bem o que fazer. No ano seguinte, eu estava no Canadá. Minha vida mudou a partir do momento em que conheci o professor Jayme”, confirma a carioca.
No doutorado, com período sanduíche na University of Waterloo, Celina consolidou laços científicos que manteria por décadas. Em 1991, defendeu a tese. No mesmo ano, nasceu sua filha. “Minha carreira e minha filha cresceram juntas. Eu aprendi a equilibrar as duas.”
A consolidação na UFRJ e a construção de uma liderança
Desde 1987, Celina fez carreira na UFRJ, primeiro no Instituto de Matemática (IM), depois na COPPE, onde, em 2011, seria a primeira professora titular a ocupar essa posição no Programa de Engenharia de Sistemas e Computação. “Só percebi tarde que havia tão poucas mulheres. A gente normaliza. É como se aquele lugar não fosse nosso”, admite a pesquisadora.
A conquista veio acompanhada de reconhecimentos: bolsa de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) desde 1992 (nível 1A desde 2012), título de Cientista do Nosso Estado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), eleição para a Academia Brasileira de Ciências (ABC) em 2022, e, neste ano, o título de Fellow da Academia Mundial de Ciências (TWAS).
Só que ela traz um carinho muito especial pelo Prêmio Giulio Massarani de Mérito Acadêmico, recebido em 2006 em homenagem aos 50 anos da COPPE. “Esse prêmio representou uma virada na minha carreira, pela forma de incentivo da COPPE, e porque na época eu era professora do Instituto de Matemática da UFRJ. Esse prêmio me abriu portas para ir para a COPPE”, recorda.
Ao mesmo tempo, Celina liderou a criação de um núcleo de excelência em Algoritmos Randomizados, Quânticos e Aproximativos — consolidando o grupo de Algoritmos e Combinatória da COPPE/UFRJ como referência internacional.
Primavera SBMAC
A relação com a Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC) acompanha quase toda a sua carreira. “O meu primeiro trabalho apresentado em um congresso foi no Congresso Nacional de Matemática Aplicada e Computacional (CNMAC) de 1988, em Ouro Preto. Eu tinha acabado de escolher o tema da minha tese. Minha primeira apresentação foi ali e eu sempre me lembro com carinho”, relata Celina.
Décadas depois, ela retornaria à SBMAC em um outro contexto — o da construção de redes de apoio e de afirmação de mulheres na Matemática.
No CNMAC de Uberlândia, em 2019, foi uma das plenaristas e foi convidada a compor a Comissão de Gênero e Diversidade da SBMAC em parceria com a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM). Logo depois veio a pandemia, mas as restrições sociais tiveram uma parcela favorável para mergulhar de cabeça na proposta das discussões em busca de igualdade na ciência.
“As reuniões remotas foram fundamentais. Estávamos juntas. As meninas me ajudaram muito. Criamos laços muito fortes. Foi lindo”, confirma Celina sobre os encontros virtuais com pesquisadoras de todos os cantos do Brasil.
Hoje, Celina atua como editora na série SBMAC SpringerBriefs, parceria da Sociedade com a reconhecida editora Springer, de forma a incentivar novas publicações, premiando teses e orientando jovens pesquisadoras e pesquisadores. Em 2018, por exemplo, viu uma aluna sua ganhar o Prêmio L’Oréal — um momento simbólico de continuidade geracional.
Em 2024, Celina fez parte de um júri da ABC, em parceria com o Grupo L’Oréal e a Unesco, do Prêmio ‘Para Mulheres na Ciência’, que laureou as melhores pesquisadoras com projetos de mérito elevado nas maiores instituições nacionais.
O que fica
Hoje, aos 60+, Celina permanece ativa e necessária. Ainda evita falar em aposentadoria. “Sinto que ainda posso contribuir e ajudar os jovens. Tenho ficado sozinha da minha geração, mas acho que ainda sou útil”, confessa.
E quando perguntam o que diria à Celina menina, deitada estudando ao lado do pai, ela sorri: “Talvez, se eu tivesse escolhido Letras, também teria sido feliz. Mas eu não deixei a literatura. A Matemática… eu não largo. É paixão. É vida.”
Celina fez da Matemática um lugar mais aberto, mais conectado e mais habitável — especialmente para mulheres que chegaram depois. Fez pontes: entre países, entre áreas, entre gerações, entre ciência e afeto.
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