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Um arquiteto de caminhos: a trajetória de Carlos Antônio de Moura com a SBMAC que moldou a Computação Científica no país

Ao lado de nomes como Marco Antônio Raupp, paraibano é um exemplo vivo na Sociedade de como vocação, rigor e espírito colaborativo foram vitais para consolidar a Matemática Aplicada brasileira e construir novos meios para pesquisa, formação e divulgação científica

Foto: SBMAC

Carlos Antônio de Moura nasceu em João Pessoa, em 1944, filho de uma família “remediada”, como descreve com naturalidade. O pai era motorista: dirigiu ônibus, carro de praça, e por muitos anos conduziu o transporte da direção do Departamento de Estradas e Rodagens da Paraíba. Foi um eleitor entusiasmado de Juscelino Kubitschek — e, como tantos brasileiros mobilizados pelo sonho da nova capital, decidiu recomeçar a vida em Brasília.

“Ele se empolgou com a proposta de Brasília. Com 44 anos, largou tudo e foi. No começo levou caminhoneiros, carregava os ‘candangos’”, conta Carlos. O pai rumou para o Centro-Oeste brasileiro em 1958. No ano seguinte, sua mãe. E, finalmente, o filho seguiu a mesma trilha exatamente no ano de inauguração da capital federal.

Entre uma mudança e outra, a educação de Carlos se desenhava como podia. Em João Pessoa, estudou em escola pública até que a mãe descobriu uma bolsa de estudos no então Colégio Batista Paraibano (hoje Colégio Batista Brasil) — um passo decisivo para que ele tivesse acesso a um ensino mais estruturado. 

Já em Brasília, cursou um ano de escola pública e depois ingressou no Centro de Ensino Médio (CEM) Elefante Branco, um projeto-piloto que antecipava a reforma universitária que a Universidade de Brasília (UnB) encarnaria.

E ali, entre greves e reviravoltas em tempos de mudanças, surgiu também uma curiosidade ampla. Carlos era bom aluno, mas ainda não tinha escolhido seu caminho.

“No antigo ‘Ginásio’, as duas disciplinas em que tirei nota 10 foram Latim e História”, lembra, rindo.

Matemática só viria depois — e por caminhos tortuosos.

O tropeço em Geometria e a descoberta da Matemática

No último ano do Ensino Secundário, Carlos teve um professor de Matemática que, segundo ele, ‘atrasou a vida da turma inteira’. “Ele tinha a doutrina de só mudar de assunto quando todos tivessem decorado as fórmulas. E assim passamos o ano praticamente sem ver Geometria”, confirma. 

O preço foi cobrado no concurso para o Colégio Naval: “Fui reprovado exatamente por causa de Geometria”. Ele queria fazer Geologia — influenciado por histórias de aventuras e pela Petrobras, símbolo de um futuro possível e oriundo de investimento e reconhecimento totalmente nacionais. 

Mas a UnB abarcava apenas cinco cursos. Procurou então o que mais se aproximasse de cálculos e mapas: escolheu Arquitetura, enquanto esperava a criação de Geologia.“Foi lá que descobri a Matemática. O professor Marco Antônio Raupp começou a me incentivar: ‘Você tem jeito pra isso’. Aos poucos, fui saindo da Arquitetura e entrando na Matemática. E nunca mais saí”, relata o paraibano.

A UnB, a crise e o salto para o IMPA

Ingressou na Graduação em Bacharelado em Matemática na UnB em 1963, em plena efervescência intelectual. A universidade vivia sua idade de ouro — até que veio o golpe militar. “Os professores começaram a ser demitidos. Ficamos sem aulas, sem orientadores. Foi um período muito duro”, confirma Carlos. 

Então, a instituição criou convênios emergenciais com o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro, para que estudantes pudessem concluir seus estudos. O paraibano foi um deles. Assim, terminou a graduação na instituição, mas com o diploma da UnB. 

No Rio, também fez o mestrado em Matemática, concluído em 1968 — e, na convivência intensa com professores que transitavam entre Matemática Pura e Aplicada, consolidou seu interesse pela segunda. Seria o início de uma trajetória que o levaria ao exterior na década de 1970.

Em 1971, completou mais um mestrado, dessa vez em Ciências Matemáticas no Courant Institute, na New York University (NYU) — um dos centros mais influentes do mundo em Matemática Aplicada. Logo depois, até 1976, veio seu doutorado em Matemática Aplicada NYU. 

“Quando cheguei nos Estados Unidos, tentei convergir tudo para a direção da Matemática Aplicada: equações diferenciais, métodos numéricos, computação. Era o começo da era dos computadores. Comecei a programar em linguagem Fortran, a pensar em processamento paralelo, em transformar problemas reais em problemas matemáticos”, recorda. 

Seu orientador seria ninguém menos que Peter David Lax, um dos matemáticos mais conceituados do país na época e que receberia prêmios importantíssimos, incluindo a Medalha Nacional de Ciências dos Estados Unidos em 1986, o Prêmio Wolf em 1987 e o Prêmio Abel em 2005.

“Foi ele quem mais me incentivou a seguir pela Matemática Aplicada”, diz Carlos. Três anos depois, retornou ao Brasil — e reencontrou o personagem que cruzaria toda a sua trajetória: o amigo Marco Antônio Raupp.

Raupp e Moura: duas vidas que se entrelaçam

A história dos dois começa na UnB, passa pelo IMPA e desemboca no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Quando Carlos voltou de Nova York, Raupp estava no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e depois no CBPF, o verdadeiro embrião de um dos principais centros de pesquisa do país.

“Ele me convidou imediatamente: ‘Venha para cá’. E fui. Chamava-se LAC — mais tarde viraria o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), narra o matemático.

Raupp queria, por sua vez, implantar no Brasil a vertente de Matemática Aplicada voltada para problemas reais. Carlos reforça que o amigo, “otimista e decidido do jeito que era” fazia as coisas acontecerem. Dito e feito. 

Dessa convivência, o paraibano lembra com admiração: “Foi muito boa a experiência de conviver com ele. Era um cara de decisões rápidas. Encontrava alguém interessado e já dizia: ‘Semestre que vem, venha trabalhar com a gente. Eu consigo’. Era determinado e fazia realmente acontecer”, corrobora.

O nascimento da SBMAC: um convite inesperado

A história de Carlos com a SBMAC começa exatamente no nascimento da Sociedade. Ele participou do histórico 1º Simpósio Nacional de Cálculo Numérico, em Belo Horizonte, em novembro de 1978, que deu origem exatamente à entidade. 

“O professor Odelar (Leite Linhares, primeiro presidente da SBMAC) nos mandou um convite para participar do primeiro encontro. Era um grupo com quem não tínhamos muita interação ainda, mas com interesses muito próximos”, relembra. 

Participaram, gostaram, e logo estavam ajudando a estruturar a nova entidade. Na segunda eleição da SBMAC, Raupp articulou uma chapa do Rio de Janeiro — e quis Carlos como tesoureiro. “Eu fui contra desde o início. Sou péssimo para as finanças. Minha mulher cuida de tudo até hoje”, brinca.

Raupp insistiu com o argumento de que a chapa teria dois integrantes do então LAC – futuro LNCC. O companheiro, então, acabou cedendo. E, assim, iniciou sua trajetória formal dentro da Sociedade.

A contribuição que o marcou para sempre: a criação do periódico da SBMAC

Depois de atuar como tesoureiro na gestão de Raupp, de 1981 a 1983, o paraibano se afastou da diretoria, mas continuou próximo, como conselheiro. Poucos anos depois, deixaria sua marca mais profunda.

Antes de ser Presidente, ele prestou um trabalho que considera, até hoje, o mais gratificante na Sociedade: Carlos foi fundamental na criação do Boletim Mensal da SBMAC — e depois fundou periódico da Sociedade, a revista Matemática Aplicada e Computacional – hoje Computational & Applied Mathematics (COAM).

Desde o início, o objetivo era ser internacional. “Queríamos um periódico aberto, com corpo editorial amplo, não restrito ao Brasil. E conseguimos. A revista passou a ser respeitada em bibliotecas de outros países”, destaca ele. 

Em 1987, então, Carlos assumiria a presidência da SBMAC, função que exerceu por dois anos.

Legado: um país diferente graças à Matemática Aplicada

Como se pode perceber, a carreira de Carlos Antônio de Moura atravessou continentes, regimes, instituições e gerações. Orientou dezenas de pesquisadores, publicou livros, integrou conselhos editoriais no Brasil e no exterior, coordenou projetos e ajudou a fundar um dos centros de excelência do país, o LNCC.

Mas quando fala da SBMAC, seu tom muda para algo próximo do orgulho: “É gratificante participar de uma Sociedade que ajudou a implantar grupos de Matemática Aplicada no país, modificar currículos, criar pós-graduações e formar profissionais que hoje atuam em empresas, ministérios, instituições públicas e privadas.”

Aos 81 anos, segue ativo como Pesquisador Colaborador na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), levando adiante projetos, orientações e debates que continuam a influenciar a área. Sua presença constante nas discussões da comunidade é um lembrete de que a construção da Matemática Aplicada no país não foi obra de um momento, mas de uma vida inteira dedicada a abrir caminhos e ampliar horizontes.

Confira o 33º episódio da série Memória SBMAC:

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