A Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional, SBMAC, entende que o fortalecimento do financiamento à Matemática é uma ação estratégica para o país, com potencial de gerar impactos duradouros na ciência, na inovação e na competitividade da economia brasileira. Estudo conduzido pelo Itaú Social em parceria com o IMPA revelou que ocupações intensivas em matemática movimentam recursos equivalentes a 4,6% do PIB brasileiro, evidenciando a relevância econômica direta da formação e da pesquisa na área. Ainda assim, esse percentual permanece significativamente abaixo do observado em países europeus, onde atividades fortemente dependentes da matemática respondem por cerca de 16% a 18% do PIB, indicando um amplo potencial de crescimento e inovação ainda não explorado no Brasil. Estudos internacionais têm demonstrado que investimentos contínuos em matemática e em suas aplicações geram impactos expressivos sobre produtividade, inovação, competitividade industrial e desenvolvimento tecnológico, além de fortalecer ecossistemas de pesquisa capazes de produzir soluções para desafios complexos em setores como saúde, energia, finanças, indústria, meio ambiente e inteligência artificial. Sendo assim, a ampliação dos recursos destinados à Matemática, Estatística e Matemática Aplicada e Computacional representa não apenas um investimento em ciência de excelência, mas também uma política estratégica para aumentar a capacidade de inovação do país e sua inserção competitiva na economia do conhecimento.
A discussão sobre critérios de avaliação deve ser acompanhada por uma reflexão mais ampla sobre a disponibilidade de bolsas para a área de Matemática, Matemática Aplicada e Estatística. Os dados recentes evidenciam uma taxa de aprovação reduzida, menor à média das outras áreas (ver tabela anexa), deixando de contemplar um número significativo de pesquisadores altamente qualificados, com produção de destaque e forte inserção internacional. Diante disso, a SBMAC defende a ampliação do número de bolsas destinadas à Matemática, em benefício de toda a comunidade científica. Trata-se de uma medida necessária para fortalecer a pesquisa numa área que é o pilar para o impulso da atual revolução tecnológica. Ao pautar essa demanda, a SBMAC reafirma seu compromisso com o desenvolvimento da Ciência e com o fortalecimento da Matemática em todas as suas vertentes.
Nesse contexto, a SBMAC vem manifestar sua preocupação com os critérios adotados no julgamento das Bolsas de Produtividade em Pesquisa do CNPq, no âmbito do Comitê de Assessoramento de Matemática e Estatística (CA-MA).
Embora a Diretoria da SBMAC reconheça a dificuldade e a complexidade do processo de avaliação, bem como os esforços e o trabalho realizados pelo CA-MA, a divulgação do resultado da chamada torna necessária uma nova manifestação, agora voltada aos efeitos concretos desses critérios, que evidenciam uma subvalorização da Matemática Aplicada e Computacional, particularmente das subáreas com forte componente computacional e/ou interdisciplinar. A Diretoria atual da SBMAC já havia se pronunciado sobre o tema, em dezembro de 2025, por meio de declaração pública sobre os critérios de julgamento da Chamada Nº 23/2025 CA-MA, em continuidade a manifestações anteriores da Sociedade.
Nos critérios atuais para bolsas nos níveis A e B, o comitê considera apenas os seis melhores artigos publicados nos últimos dez anos, classificados de acordo com o índice SJR, da base Scimago. Isto produz distorções significativas, ao privilegiar subáreas cujos principais periódicos apresentam maior pontuação nesse ranking, ao mesmo tempo em que desconsidera parcela expressiva da produção científica de excelência de pesquisadores.
Há casos concretos que ilustram essa distorção. Em uma subárea da Matemática Aplicada Computacional, um pesquisador não foi contemplado com bolsa de nível A, embora seus seis melhores artigos estejam publicados em periódicos com índice SJR médio de 2,1. O corte baseado em apenas seis artigos é arbitrário e deixa de considerar a consistência da produção qualificada do pesquisador, uma vez que o índice SJR médio de seus quinze melhores artigos permanece acima de 2,0. Mesmo para bolsa B, uma produção desse nível é considerada limítrofe, podendo não ser contemplada quando considerados os demais critérios. É importante salientar que as revistas em questão são tradicionalmente reconhecidas como as principais dessa subárea. Assim, a pontuação atribuída não decorre de uma escolha inadequada de veículos de publicação, uma vez que não há periódicos considerados melhores em que os resultados pudessem ser publicados.
A SBMAC realizou ainda simulações para avaliar o cenário em que todos os atuais bolsistas de produtividade da área de Matemática Aplicada participassem deste edital. Os resultados indicam que, mesmo atribuindo a pontuação máxima em todos os critérios não relacionados à produção científica e considerando a bonificação de 25%, nenhum pesquisador da área alcançaria a pontuação mínima necessária para o enquadramento no nível A, com exceção do primeiro colocado na chamada atual. Além disso, é importante destacar que, para pesquisadores de Matemática Aplicada e Computacional, a obtenção da bonificação de 25% seria, na prática, extremamente improvável. Isso porque a lista de “Valorização de artigos por notável contribuição” (ver item 4.2.6 dos critérios aplicados no Edital de 2025) não contempla periódicos tradicionalmente reconhecidos pela maioria da comunidade de Matemática Aplicada e Computacional.
Para enfatizar que os critérios atuais são particularmente severos com subáreas computacionais e/ou interdisciplinares, verificou-se, por amostragem, que entre os pesquisadores contemplados com prestigiosos prêmios da SIAM, Society for Industrial and Applied Mathematics, ou do ICIAM, International Council for Industrial and Applied Mathematics, nenhum seria contemplado com bolsa de nível A nas condições atuais, mesmo considerando nota máxima nos quesitos não relacionados à produção científica e bonificação próxima ao limite máximo de 30%. Como exemplo, Alfio Quarteroni, Weinan E e Jorge Nocedal somente alcançariam a pontuação correspondente ao nível A mediante a aplicação de bônus próximos de 30%. Um dos mais destacados matemáticos aplicados brasileiros, José Mario Martínez, bolsista 1A por décadas, que por muitas vezes ocupou a primeira colocação em chamadas prévias e vencedor de prêmios internacionais, jamais, em nenhum ano de sua carreira, teria atingido o nível A com os critérios da presente chamada, mesmo recebendo bonificação máxima e nota máxima nos quesitos não relacionados à produção científica.
Esse resultado evidencia a inadequação do modelo vigente para avaliar, de forma justa e representativa, a excelência científica em Matemática Aplicada e Computacional.
Além do número excessivamente reduzido de artigos considerados, isto é, apenas seis em um período de dez anos, os critérios limitam, de forma arbitrária, o impacto de revistas interdisciplinares. Esse ponto já havia sido objeto de manifestação anterior da SBMAC, por meio da declaração do Grupo de Trabalho da SBMAC para acompanhamento de avaliações referente à Chamada Nº 18/2024.
Entendemos, ainda, que as regras aprovadas para vigorar nas chamadas de 2024, 2025 e 2026 previam a consideração de dez artigos, critério que foi alterado na passagem do edital de 2024 para o edital de 2025, sem consulta à comunidade.
Diante desse cenário, a SBMAC solicita ao CNPq e ao CA-MA a revisão dos critérios atualmente empregados antes da publicação do Edital de 2026, de forma a garantir uma avaliação justa, equilibrada, transparente e representativa da produção científica em Matemática Aplicada e Computacional. A área possui uma comunidade científica vibrante, produtiva e internacionalmente reconhecida, cuja excelência não pode ser adequadamente capturada pelos critérios atualmente adotados.
Em particular, a SBMAC requer:
- o restabelecimento, para o Edital de 2026, da avaliação baseada em 10 artigos científicos, conforme estabelecido originalmente para as chamadas de 2024, 2025 e
2026; - a eliminação ou redução substancial do peso atribuído à lista de “Valorização de artigos por notável contribuição”, de modo a evitar distorções que penalizam algumas subáreas e não refletem adequadamente a diversidade e a excelência da produção científica nacional;
- a equiparação entre Matemática e Matemática Aplicada em todos os critérios de pontuação adicional, considerando, por exemplo, que uma palestra convidada no Congresso Internacional de Matemáticos (ICM) recebe bonificação de 7%, enquanto uma palestra convidada no Congresso Internacional de Matemática Industrial e Aplicada (ICIAM) recebe apenas 2%;
A SBMAC também se posiciona a favor do aumento do peso para participação em corpo editorial de periódicos de alto nível e de uma maior valorização de periódicos interdisciplinares.
Por fim, destacamos que, em carta da comunidade matemática brasileira em 2020, subscrita com amplo apoio, consta a seguinte observação:
“Número e tamanho de artigos, fatores de impacto de diversos tipos, qualidade das
revistas em que foram publicados, estão entre os números a serem levados em
conta em uma avaliação, mas isso deve ser feito considerando as especificidades
e ritos de produção de cada subárea.”
Reafirmamos que os ritos de produção científica de determinadas subáreas não podem se sobrepor aos ritos próprios das demais. Uma avaliação justa deve reconhecer as especificidades de cada subárea, especialmente em uma área ampla e plural como a Matemática, a Estatística e a Matemática Aplicada e Computacional.
A SBMAC agradece a atenção e se coloca à disposição para dialogar e participar de maneira efetiva da construção de novos critérios.
Saudações cordiais.
Diretoria da SBMAC
Biênio 2026–2027
