Realizada na FCT/Unesp, em Presidente Prudente, 45ª edição teve participação internacional recorde, apresentações de estudantes, premiações, homenagens e atividades para crianças

A 45ª edição do Congresso Nacional de Matemática Aplicada e Computacional (CNMAC) representou um marco para a Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Unesp, em Presidente Prudente. De 14 a 18 de setembro, o campus, que foi berço científico de talentos da Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC), recebeu cerca de 550 participantes de diferentes partes do Brasil e do exterior.
Nem a chuva e as baixas temperaturas, incomuns em uma cidade conhecida pelo calor, diminuíram a movimentação nas salas e auditórios que abrigaram o congresso. Desde as primeiras horas da manhã, estudantes, docentes e pessoas em diferentes etapas da carreira participaram de uma programação que incluiu plenárias, simpósios, minicursos, mesa-redonda, seções técnicas e apresentação de posters científicos.
Para a Presidente da SBMAC, Maria Soledad Aronna, o evento, mais uma vez, foi capaz de avançar em temas prioritários para a comunidade matemática. “A matemática industrial e a inteligência artificial são temas que vêm ganhando espaço, e o CNMAC é justamente esse espaço de encontro, no qual pesquisadores e pesquisadoras podem compartilhar experiências, conhecer novos trabalhos e discutir assuntos de fronteira”, destaca.
Professora da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV EMAp), Maria Soledad Aronna também ressaltou a presença expressiva de estudantes, pesquisadores e pesquisadoras em início de carreira. “É incrível ver tantos jovens interessados nas discussões e apresentando trabalhos. Quando conversamos com pessoas mais experientes na pesquisa, elas contam qual foi a primeira participação no CNMAC porque isso é realmente um marco para a carreira”, afirma.
Organizadora local do evento, a docente Gilcilene Sanchez de Paulo, da FCT/Unesp, avaliou a importância de receber o CNMAC. “Temos um curso consolidado de matemática, e a participação dos nossos alunos no evento mostra que estamos no caminho certo, acompanhando as novas tendências discutidas durante o congresso”, afirmou.

Participação internacional amplia intercâmbio científico
A presença de pesquisadores e pesquisadoras estrangeiros e estrangeiras foi um dos destaques do CNMAC 2026. Com cinco palestrantes internacionais, número recorde na história do congresso, o evento reuniu representantes de instituições dos Estados Unidos, da França, da Argentina e do México. As palestras trouxeram resultados recentes de diferentes campos da matemática aplicada e computacional e ampliaram as oportunidades de diálogo e colaboração entre a comunidade brasileira e cientistas de outros países.
Responsável pela plenária de abertura, Carol Woodward, Presidente da Sociedade de Matemática Industrial e Aplicada (SIAM), dos Estados Unidos, explicou como métodos adaptativos que trabalham com diferentes escalas de tempo podem tornar mais eficiente a simulação de sistemas complexos. A pesquisadora apresentou aplicações em áreas como dinâmica quântica, combustão e física nuclear, nas quais diferentes processos podem ocorrer em velocidades muito distintas. Também mostrou como essas técnicas foram incorporadas ao SUNDIALS, conjunto de ferramentas computacionais voltado à solução de problemas matemáticos de grande escala.
Segundo Carol, o CNMAC foi uma oportunidade importante para compreender o que a comunidade brasileira está produzindo. “Pessoalmente, eu conhecia pouco o que vinha sendo desenvolvido no Brasil e todo o excelente trabalho realizado aqui. Tem sido muito interessante conhecer melhor a produção do país, as áreas da matemática aplicada que têm recebido maior atenção e as instituições onde essas pesquisas são desenvolvidas”, declarou.

Outro destaque foi a plenária do pesquisador italiano Leo Liberti, da École Polytechnique, na França. Em Projeções aleatórias em programação matemática: avanços recentes, ele mostrou como problemas de otimização com grande quantidade de dados podem ser reduzidos a dimensões menores para se tornarem computacionalmente viáveis.
A participação no CNMAC também representou a continuidade de uma relação de mais de duas décadas entre Liberti e a comunidade científica do Brasil, iniciada por intermédio de Nelson Maculan e consolidada em trabalhos com nomes como Carlile Lavor. Para ele, essas colaborações mostram que a produção científica não deve ser limitada por divisões geográficas. “Acho que, no meio acadêmico, as fronteiras de um único país não fazem muito sentido. Nos últimos 25 anos, tivemos muitos resultados novos em matemática aplicada, assim como em praticamente todas as outras áreas do conhecimento. A questão central, para mim, é que a academia não tem fronteiras”, declarou.

A integração latino-americana esteve representada pela participação de Claudia Rangel Escareño, do Instituto Tecnológico e de Estudos Superiores de Monterrey, no México, e por Daniela Rodríguez, pesquisadora da Universidad Torcuato Di Tella, na Argentina. Em sua primeira participação no CNMAC, Daniela destacou a rede de colaboração entre cientistas latino-americanas. “Este encontro no CNMAC também me fez perceber a dimensão da rede de cientistas que trabalha por trás da Jornada Ada Lovelace. Acho que esse foi um efeito que não estava necessariamente previsto no início do projeto, mas que se tornou muito importante”, concluiu a cofundadora da iniciativa.

Da teoria aos problemas reais
A diversidade de temas discutidos ao longo do CNMAC 2026 mostrou caminhos pelos quais a matemática aplicada pode contribuir para compreender e enfrentar problemas concretos. Otimização, oncologia computacional, inteligência artificial e a aproximação entre universidades e empresas estiveram entre os assuntos abordados nas palestras, sessões, cursos e na mesa-redonda.
Em sua plenária, o professor Ernesto Birgin, do Instituto de Matemática, Estatística e Computação (IME) da USP, apresentou avanços em métodos regularizados de descida por coordenadas em blocos e discutiu sua aplicação na resolução de problemas de grande porte, como o roteamento de veículos. A pesquisadora Regina C. Almeida, do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), abordou como modelos matemáticos e computacionais podem ajudar a representar características específicas de cada paciente oncológico e, a partir delas, contribuir para o estudo de respostas individualizadas aos tratamentos. Na mesa-redonda Conexões Matemáticas: indústria, tecnologia e sociedade, o professor Luiz Leduíno Salles Neto, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), a Head de Gente e Gestão Daniela Miranda, da UniSoma, e a coordenadora de créditos e cartões, Karen Porfirio, da Neon, discutiram os caminhos da matemática aplicada em áreas como otimização, análise de dados e setor financeiro. A inteligência artificial esteve entre os principais temas, com debates sobre seu uso no ambiente profissional e na produção científica, além de questões relacionadas à autoria e à transparência na utilização dessas ferramentas.
O público também participou ativamente da conversa por meio de votações em tempo real, manifestando se concordava ou discordava dos tópicos apresentados por pessoas convidadas. A dinâmica ampliou a troca de experiências sobre as transformações provocadas pela IA, a formação de profissionais e as possibilidades de atuação dessas pessoas dentro e fora da universidade.
Um dos minicursos foi ministrado pelas professoras Vanilde Bisognin e Eleni Bisognin, da Universidade Franciscana, e pelo professor José Antônio Salvador, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e abordou a aproximação entre a matemática aplicada e a educação. Vanilde, que durante o 45º CNMAC foi homenageada como nova sócia honorária da SBMAC, enfatizou a importância de ampliar o diálogo para que o conhecimento produzido nas universidades também alcance docentes e estudantes da educação básica. “Precisamos cada vez mais qualificá-los e também mostrar o poder que a matemática aplicada tem para motivar alunos de diferentes níveis a estudar matemática”, afirmou.

Outro momento aguardado da programação foram as sessões de pôsteres, que reuniram trabalhos de estudantes de iniciação científica e de pós-graduação sobre diferentes aplicações da matemática. Participando do CNMAC pela primeira vez, a graduanda Ana Júlia da Silva, da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV EMAp), apresentou uma pesquisa que utiliza modelagem matemática para estudar a disseminação da gripe aviária de alta patogenicidade em rebanhos de gado leiteiro. A estudante destacou a oportunidade de conhecer pesquisas distantes de sua área de atuação. “Assisti a palestras sobre coisas das quais nunca tinha ouvido falar e, ainda assim, os cientistas conseguiram fazer com que a gente entendesse pelo menos um pouco dos assuntos mais complexos”, contou.
A troca de experiências também marcou a participação de Sharael Silva, mestranda em Matemática da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que viajou do Norte do país para apresentar sua pesquisa sobre modelagem aplicada ao mercado automobilístico. “É gratificante estar aqui, sair um pouco da minha cidade, conhecer outros lugares, outras culturas e outros saberes. É isso que este evento proporciona”, garantiu.

Reconhecimento à produção científica
O CNMAC também foi palco da entrega dos Prêmios SBMAC 2026, que reconheceram trabalhos de iniciação científica, mestrado e doutorado. Na iniciação científica, o primeiro lugar do Prêmio Beatriz Neves ficou com Paulo Michel Fajardo Yamagishi, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pelo trabalho “O método de trajetória dual para fixação de variáveis com aplicação ao problema de recobrimento de conjuntos”. Na pós-graduação, Felipe de Campos Pinto Sinnecker, da UFRJ, conquistou o Prêmio Clóvis Caesar Gonzaga, destinado a trabalhos de mestrado, com uma pesquisa sobre um problema de cobertura de grafos relacionado à localização ótima de locais para pousos de segurança. Já o Prêmio Marco Antônio Raupp, dedicado às teses de doutorado, foi concedido a Juliana Gomes Ferreira de Souza, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Outro destaque foi a entrega do Prêmio Johannes Kepler, que em sua quarta edição reconheceu o artigo Topology optimization including a model of the layer-by-layer additive manufacturing process, que tem como primeiro autor o professor Geovane Augusto Haveroth, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, primeiro autor da pesquisa. “Em nome de todos os autores do artigo, agradeço à SBMAC pela iniciativa que contribui para fortalecer a pesquisa de excelência. Estou muito feliz com esse reconhecimento”, agradeceu.
O trabalho incorpora ao processo de otimização características e limitações da fabricação camada por camada, permitindo que aspectos que interferem na produção das peças sejam considerados ainda durante o projeto.

Homenagens celebram trajetórias que ajudaram a construir a SBMAC
A programação reservou ainda espaço para reconhecer quem contribuiu para o desenvolvimento da SBMAC e para a consolidação da matemática aplicada e computacional no Brasil. Durante a Assembleia Geral, Alagacone Sri Ranga, Marcos Nereu Arenales, Messias Meneguette Júnior e Vanilde Bisognin receberam o título de associada e associados honorários da Sociedade. A programação também contou com sessões temáticas em comemoração aos 70 anos dos professores Ranga, Arenales, Messias e José Alberto Cuminato, o Poti. Ex-orientandas e ex-orientandos apresentaram pesquisas e compartilharam lembranças divertidas e emocionantes, que mostram que a construção do conhecimento também é feita de convivência, generosidade e vínculos humanos. O professor Messias destacou que a homenagem aos pesquisadores que completaram 70 anos também permitiu revisitar um período decisivo para a área no país. “Vivemos um tempo de efervescência, em que a matemática aplicada no Brasil foi ganhando existência, identidade e músculos. Tive o privilégio de estar ali desde o início”, afirmou.
A professora Marilaine Colnago, por exemplo, recordou o período em que começou a trabalhar como professora substituta na FCT Unesp. Ao perceber que ela não teria uma sala própria, Messias cedeu parte do espaço de seu gabinete para que a ex-orientanda pudesse trabalhar. O gesto foi lembrado como exemplo do acolhimento oferecido pelo professor às pessoas que ajudou a formar ao longo da carreira.

Já a professora Kelly Poldi ressaltou que o legado de Arenales ultrapassa a expressiva produção científica e a contribuição para o desenvolvimento da otimização no Brasil e no exterior. “O legado está presente, sobretudo, nas pessoas”, ressaltou Kelly.
Alagacone, por sua vez, relacionou o reconhecimento ao momento de encerramento da carreira. “São 41 anos trabalhando aqui no Brasil. Estou pensando em me aposentar no final do ano e é uma grande honra receber este título”, afirmou.
Poti, também agradeceu o reconhecimento. “Foi muito gratificante ver que, no final das contas, aquilo que a gente pensou que poderia fazer foi realizado de alguma maneira. É sempre gratificante receber uma homenagem e ter alguém que reconheça o nosso trabalho”, afirmou.

CNMACquinho combina aprendizado e acolhimento às famílias
Paralelamente à programação científica, o CNMACquinho acolheu as crianças com atividades que combinaram diversão e aprendizado. Durante os cinco dias de congresso, oficinas de robótica, experiências de Química, jogos, sessões de contação de histórias e visita ao laboratório de Física foram algumas das ações preparadas para diferentes faixas etárias.
Além de despertar o interesse das crianças pela ciência, a iniciativa permitiu que mães, pais e responsáveis acompanhassem as atividades do congresso com mais tranquilidade. Para o professor Wallace Correa de Oliveira Casaca, cuja filha Cora participou pela primeira vez, esse acolhimento é um diferencial do CNMAC. “É um dos poucos eventos que oferece a possibilidade de os pais participarem da programação e, ao mesmo tempo, trazerem os filhos. Aqui, não são apenas os participantes que são bem-vindos, mas também as nossas crianças”, afirmou.

A pós-doutoranda Andréia da Silva Santos de Faria, da Unesp de Rosana, também destacou a importância do espaço para a participação no congresso. “Enquanto eu estava participando do evento, meu filho também estava envolvido em atividades e sendo acompanhado por pessoas preparadas”, contou.
Entre jogos, desenhos e experiências, Chiara Trinca Watanabe, 8 anos, que já havia participado do CNMACquinho em 2024, elegeu sua atividade preferida. “Eu vim com a minha mãe e amei os jogos e as massinhas”, disse. Já Theo Costa Brandão, 8 anos, gostou especialmente da oficina de robótica. “Eu me diverti fazendo um fantasminha”, contou.

Realizado anualmente desde 1981, o CNMAC encerrou sua 45ª edição renovando o compromisso com o crescimento da área no país. Para o vice-presidente da SBMAC, Luiz-Rafael Santos, os resultados da edição servem de impulso para a organização do próximo CNMAC, que será realizado em 2027 na Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Bernardo do Campo (SP). “O CNMAC é uma atividade contínua da Sociedade. Por isso, assim que uma edição termina, já começamos a preparar a seguinte. O comitê científico passa a definir as palestras, solicitar financiamentos e cuidar de uma série de detalhes. Tudo isso para que, como ocorreu aqui e nas demais edições, as pessoas possam se encontrar, interagir, apresentar seus trabalhos, aprender e contribuir para o crescimento da matemática aplicada e computacional no país”, assegurou.
