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28/09/2022

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Maria Cristina: a mulher entre os homens na Matemática

Nascida no Rio de Janeiro, Maria Cristina de Castro Cunha gostava de matemática desde o ensino médio – e contava com a influência do pai para aumentar o seu interesse. Entretanto, na década de 1960, período onde entrou na universidade, ainda era uma carreira difícil. Por esse motivo, optou pela graduação em Engenharia Civil, na Universidade Federal do Ceará (UFC), mas fazia, em paralelo, cursos de bacharelado em matemática.

Trabalhou cerca de dois anos com engenharia e chegou a conclusão que não era o que queria. Em 1970, agora na Universidade de Brasília (UnB), voltou para o universo matemático. “Naquela época as coisas eram mais simples, eu só tinha uma graduação em engenharia e fui contratada para o departamento de matemática”, conta ela.

Ficou na capital do país até 1976, e foi por lá onde fez o mestrado em matemática aplicada. A partir daí, surgiu a possibilidade de ir para a Unicamp, universidade que mudou a sua vida. “Eu sou mais campineira do que carioca, onde eu nasci; do que cearense, onde eu fiz a graduação; e também brasiliense, onde eu morei bastante tempo”.

SBMAC e a Matemática Aplicada

Em Campinas, foi para o Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) fazer seu doutorado em matemática, e foi aí que a sua história se cruzou com a SBMAC. Ela contou com uma orientação de fora do IMECC, alguém que já havia ajudado em seu mestrado na sua área de pesquisa. Era o professor Marco Antônio Raupp, um dos fundadores da Sociedade.

“Eu estava desde o começo da SBMAC. Ela foi criada em 1978, e nesse primeiro encontro, que foi bem Belo Horizonte, eu não estava, porque me encontrava em um seminário apresentando a minha tese que havia acabado de finalizar. Na verdade, não foi o primeiro encontro da Sociedade, mas sim um encontro de pessoas interessadas em cálculo numérico, e foi nele que foi decidido pela criação da SBMAC. Em 1979 que realmente foi realizado o primeiro encontro, em São Carlos. O coordenador era o professor Delart, que havia sido eleito presidente da sociedade. Ali foram dados os nossos passos iniciais, e lá estava eu participando dessas reuniões”, relembra.

Segundo Maria Cristina, a SBMAC aparece num vácuo de matemática aplicada no Brasil. “A tradição era a matemática chamada ‘pura’. Na época a gente nem ligava, mas hoje é interessante ver que havia uma certa necessidade desse espaço de pessoas que gostavam de matemática, mas não estavam encaixadas no espaço da matemática pura e suas áreas tradicionais”.

A matemática aplicada não era considerada matemática nesta época. A SBMAC surge, então, com o papel de resistência para a criação de uma área que não possuía tradição e contava com a rejeição dos matemáticos tradicionais. Ela era algo entre engenharia e métodos numéricos, algo novo para o pessoal da velha-guarda. 

“São tantas histórias… Eu acho curioso como a SBMAC foi engatinhando e caminhando como uma família. Era o que nós éramos. Quando nos encontrávamos, era sempre uma festa. Os eventos e congressos eram sempre muito interessantes e enriquecedores. Eram pessoas de toda parte com formações diferentes”, afirma.

A determinação era de realmente criar o espaço da matemática aplicada. “Eram pessoas que se animaram em criar um espaço para pessoas de outras áreas – que seriam os usuários de matemática. Isso foi interessante, porque isso aconteceu onde tinha que ser: em São Paulo. Era um espaço que tinha que ser nessa região por possuir maior abertura para essas aplicações”.

A mulher entre os homens

Em um grupo de 55 alunos na faculdade de engenharia da UFC, Maria Cristina era a única mulher. Causou espanto na cidade, saindo inclusive no jornal, afinal, não era um fato corriqueiro para aqueles tempos. Apesar disso, ela diz ter participado de um ambiente agradável durante sua formação.

“Eu não cheguei a sentir resistência por ser mulher. Fiz o curso em um ambiente de muito respeito e camaradagem. Havia uma certa disputa, é verdade”, explica ela, que em tom bem humorado, ainda conta uma curiosidade sobre suas provas. “Eu sempre estive entre os melhores da turma, então muitos deles achavam que era porque eu era mulher, que o professor era bonzinho comigo. Minhas provas circulavam pela sala quando vinha a nota, todo mundo queria checar para ver se havia algum tipo de favorecimento. Eu achava engraçado, não sentia como resistência”, relembra.

Hoje, aposentada há quase 10 anos, Maria Cristina se diz realizada com sua carreira. Pioneira em quase tudo que se propôs a fazer, ela viveu e é parte da história da SBMAC.

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