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09/11/2022

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Joni: o sonhador de Mogi Mirim

Conheça a história de mais um dos fundadores da SBMAC

João Frederico da Costa Azevedo Meyer, o Joni – não do jeito americano, “Johnny”, mas sim caipira mesmo, de Mogi Mirim – faz parte do grupo de sonhadores, como ele mesmo define, que fundaram a Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC) em 1977.

As suas origens no interior de São Paulo, inclusive, são motivo de grande orgulho. Ele se intitula como um caipira de formação e genética, e leva as suas raízes como uma das coisas mais bonitas e fascinantes que a vida pôde lhe oferecer.

Nos estudos, ainda jovem, já tinha certa aptidão com matemática, mas a sua obrigação era de ser excelente em português e francês. Em virtude do trabalho do pai, precisou se mudar para Lisboa, em Portugal, e, no momento da matrícula, viu sua mãe ser confrontada. 

“A diretora do colégio disse para minha mãe, com ar de desprezo, que aceitava aluno brasileiro, mas que todos eram muito preguiçosos. Minha mãe, professora de línguas neolatinas como francês, espanhol e italiano, fez questão de dar aulas para nós todas as terças e quintas-feiras à noite para que eu e meus irmãos fôssemos muito bem em português e francês com essa professora. E assim o fizemos, apesar de não ser minha paixão.”

Quando voltou para o Brasil, passou a ser morador de Niterói, no Rio de Janeiro. Por lá, teve um professor de matemática que, em suas palavras: “era horroroso! Não sei como escrever isso, mas talvez a melhor forma seja em negrito com letras maiúsculas”. O professor os obrigava a fazer todos os exercícios de todos os livros que ele havia recomendado, o que despertou em Joni uma enorme aversão à matéria – mesmo com sua aptidão e afinidade. 

Ao entrar no ensino médio, as coisas mudaram. Tornou-se aluno da professora Maria Cecília Neves, que era irmã de uma das principais pessoas da história da SBMAC, a saudosa Beatriz Neves. Com um olhar apurado, ela notou que Joni precisava voltar para a matemática. Ainda que relutante, ele foi convencido de que não odiava a matéria, mas sim tinha tido um problema específico com um professor dela. “Acho que isso acontece com muita gente, porque a matemática é uma atividade humana. É uma atividade intuitiva”, associa ele.

Ao entrar na Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, teve contato com professores como Rubens Murilo Marques, Eduardo Sebastiani, Mauro de Oliveira César e Paulo Boulos. Estes docentes, segundo Joni, possuíam brilho no olhar ao falar da matemática. Além deles, o já falecido Imre Simon, da USP, que, no melhor estilo Fernando Pessoa, colocava tudo de si no exercício de sua profissão. Através deste brilho dos seus docentes, Joni, junto à brasa que estava adormecida dentro dele, foi seduzido pela magia da matemática.

Naquela época, nos moldes optados por ele, fazia-se dois anos de um ensino clássico, para apenas no terceiro optar qual profissão seria realmente a sua formação. Diante da paixão numérica que exalava cada vez mais, João chegou à inevitável escolha pela matemática. Os professores que tinham brilho nos olhos e paixão continuaram, o que deixou a experiência ainda mais especial. 

Formado na área pela qual era apaixonado, deparou-se com a latente falta de professores enfrentada pela Unicamp. Na busca por novos docentes, a Universidade contratou Joni para ser professor de cálculo numa turma de 120 alunos.

“Eu entrei naquela sala, me vi ali na frente de 120 alunos, o quadro atrás de mim e aquela imensidão de estudantes esperando que eu começasse minha aula. Eu, que tinha praticamente a mesma idade deles, me senti numa sensação de que ou dava aula, ou fugia, ou sentava, chorava e clamava pela minha mãe – o que não eram opções. E assim eu comecei a dar aula”, relembra em tom bem humorado.

O surgimento da SBMAC

Segundo Joni, no contexto de criação da SBMAC, só havia departamentos de matemática e departamentos de computação. Dessa maneira, em alguns momentos, era o pessoal de matemática quem dava aula de Cálculo Numérico e, em outros momentos, o pessoal de computação. Em 1978, foi realizado o I Simpósio Nacional de Professores de Cálculo Numérico, em Belo Horizonte, que teve como preocupação principal educar e fazer algo diferente, que não se contentava apenas com a álgebra linear.

“No anseio de ter mais espaço para além da matemática dita como pura, a matemática aplicada, nós decidimos formar uma sociedade naquele Simpósio. Parecia que todos éramos novinhos, estudantes. Para a idade que eu tenho hoje, eu realmente era apenas um menino. Havia muita gente com determinação pela conquista de um espaço maior. Queríamos usar a tecnologia existente para realizar verdadeiras aplicações”, relembra.

Neste processo, inclusive, pessoas muito relevantes lideraram o emergir da Sociedade. Uma delas foi Marco Antonio Raupp, que chegou a ser Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil entre 2012 e 2014. 

Nestes contextos, a SBMAC surge pela necessidade de uma representatividade, para que fosse possível realizar solicitações para eventos que tratassem especificamente de matemática aplicada. Para que existisse uma entidade que não fosse apenas representativa, mas também inclusiva. “Nós começamos com matemáticos, com o pessoal da computação, engenheiros, físicos. Sempre tivemos um perfil que incluísse cada vez mais pessoas dos mais variados nichos”, explica.

Por ter um histórico político bastante ativo desde os tempos de estudante no colégio e também na sua atuação como cristão, Joni foi bastante ativo nas primeiras articulações da SBMAC. Em meio a isso, foi convidado para ser o segundo secretário da Sociedade. “Era uma posição que, sendo bem sincero, fazia pouca coisa, exceto por um fator. O segundo secretário era o responsável por assuntos do ensino, que eram todas as atividades de educação matemática, e assim participei da primeira diretoria”.

Em meio a uma situação política delicada, onde quem se declarava militante comunista era perseguido, Joni permaneceu como figura ativa na SBMAC. O pai dele, num belo dia, comunicou para a família de que estariam de mudança para Suíça por conta do seu trabalho. Mas João Frederico, desta vez, não acompanhou seus familiares. Nesta época, ele era presidente acadêmico e seus colegas haviam acabado de serem presos. De bate-pronto, e sob um sentimento de que precisava salvar o país e não podia abandonar a sua luta, decidiu permanecer.

Conexão com Paulo Freire

Entre tantas relações, Joni teve no educador e filósofo pernambucano Paulo Freire um grande parceiro. Muito além de uma relação acadêmica, os dois se ajudavam na vida. Freire, que era amigo do pai de Joni, chegou a auxiliá-lo cuidando de seus dois filhos quando eram apenas crianças, o que lhe trouxe uma experiência de convívio que perpassou a educação e atingiu um âmbito paternal.

Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire também teve contato matemático com Joni. Ao estudar o sistema de numeração dos ameríndios brasileiros – a matemática dos indígenas -, Joni teve a missão de explicar ao pedagogo sobre como era a modelagem matemática de fenômenos sociais e naturais. 

“Nós conversamos a tarde inteira numa sala aqui da Unicamp. O Paulo Freire falou o tempo todo, contou histórias, comentou, e a última coisa que ele me disse, eu levo no meu coração, possui um grande significado para mim. Ele disse: ‘Se eu soubesse que a gente podia fazer matemática assim, eu teria colocado isso na minha teoria’. Eu não sabia como reagir, fiquei olhando como se fosse a coisa mais natural do mundo, mas por dentro aquilo fervia”.

Relação com a Sociedade atualmente

Por sua gratidão e sentimento de ter o esforço reconhecido, Joni possui, até os dias de hoje, uma relação direta com a SBMAC. Segundo ele, não é que a universidade não tenha reconhecido o que ele fez, mas foi na Sociedade onde desenvolveu atividades que lutaram para que a matemática estivesse a serviço das pessoas. Esse reconhecimento, para ele, é muito importante. 

“Eu me sinto totalmente em casa na SBMAC. A minha relação com ela é total. Eu só perdi eventos de matemática aplicada por saúde ou por falta de dinheiro. Sempre participei muito ativamente, carregando apostilas, computadores, servindo água, café, biscoito, tudo. Fiz e faço isso até hoje.”

Com uma dedicação praticamente interminável e incontáveis histórias, João Frederico da Costa Azevedo Méier, o Joni, viveu, vive e é parte da história da nossa Sociedade.

Confira o terceiro episódio da série Memória SBMAC:

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